Há uma pergunta que muitos professores calam por parecer resistência, e que precisa ser feita.
A objeção honesta
Tudo bem falar de ordem divina e de contemplação da verdade quando se ensina Filosofia, História ou Literatura. Mas o que fazer quando a matéria é técnica? Análise sintática. Tabuada. Concordância verbal. Conjugação. Onde está a ordem divina numa lista de exceções ortográficas que o aluno tem de decorar porque é assim e pronto?
A pergunta é legítima e merece resposta honesta, não retórica. E a melhor resposta vem do que efetivamente acontece nas salas de aula.
O testemunho da gramática
Uma professora de língua portuguesa relatou algo que aconteceu com suas turmas ao ensinar estilística e gramática em detalhe, não como lista de regras a decorar, mas mostrando como funciona.
Ao compreenderem a estrutura da língua, por que aquela inversão produz aquele efeito, por que o autor escolheu aquele tempo verbal e não outro, o que a posição do adjetivo faz com o sentido, os alunos passaram a ler literatura de outro modo. Deixaram de consumir o texto e começaram a ver dentro dele.
E o efeito foi maravilhamento. Os alunos perceberam que havia ali uma ordem que ninguém tinha inventado à toa, uma inteligência operando na própria estrutura da linguagem, um sistema de precisão que eles usavam a vida inteira sem nunca ter notado.
Ninguém falou de Deus naquela aula. E aquilo foi uma experiência religiosa em sentido próprio.
Há um relato paralelo com a matemática. Um professor que, antes mesmo de conhecer a educação clássica, já usava a matemática para ensinar lógica e ordenar o pensamento dos alunos observou o resultado: ao aprenderem a estruturar o raciocínio, os estudantes tornavam-se mais capazes de questionar e de alcançar verdades mais altas. A disciplina que parecia a mais fria de todas revelou-se um verdadeiro apostolado.
Duas disciplinas técnicas. Nenhuma menção religiosa. Duas experiências de contato com a ordem do real.
A resposta ao problema técnico
Do que precede tira-se um princípio, e ele resolve a objeção inicial.
Uma matéria técnica se torna formativa quando o aluno compreende a lógica e o propósito por trás da técnica.
Uma regra apresentada como arbitrariedade a memorizar é um peso morto, e o aluno tem razão em resistir a ela. A mesma regra apresentada como solução para um problema real muda de natureza: passa a ser inteligível, e o que é inteligível pode ser amado.
A ortografia existe porque a língua precisa de estabilidade para atravessar o tempo e o espaço. A concordância existe porque a frase precisa marcar quem faz o quê, sem ambiguidade. A tabuada existe porque há operações que a mente precisa ter disponíveis instantaneamente para poder pensar no que vem depois. Nenhuma dessas coisas é capricho. Cada uma resolve uma dificuldade real, e quando o aluno vê a dificuldade, o instrumento deixa de ser tirania.
Isso não elimina o esforço. Decorar continua sendo penoso, e continuará. Mas há uma diferença enorme entre um esforço penoso e sem sentido e um esforço penoso que se sabe para quê, e essa diferença é toda a diferença entre um aluno que resiste e um aluno que aceita a disciplina.
Vale dizer, aliás, que o rigor é parte da beleza. Uma matéria ensinada de modo frouxo, com exigência baixa para não desagradar, não produz maravilhamento nenhum, porque ninguém se maravilha com o que é fácil. A admiração diante da ordem exige que se tenha visto a ordem em detalhe, e ver em detalhe custa trabalho.
Thaumázein: o começo de tudo
Chegamos ao conceito que sustenta este artigo, e ele é dos gregos.
Platão, no Teeteto (155d), afirma que a filosofia começa na admiração, no espanto diante daquilo que é. Aristóteles, na abertura da Metafísica (I, 2, 982b12), diz o mesmo com outras palavras: é por maravilhar-se que os homens começaram a filosofar, e é por maravilhar-se que continuam.
O termo grego é thaumázein: maravilhar-se, espantar-se, ficar perplexo diante do real.
Note-se a radicalidade da afirmação. O conhecimento não começa com uma pergunta bem formulada, nem com um problema prático, nem com uma necessidade. Começa com um estado afetivo: alguém olha para algo e fica pasmo. A pergunta vem depois, como consequência do espanto.
E isso tem uma consequência pedagógica imensa: se o espanto é o início, então uma aula que nunca provoca espanto não iniciou nada. Pode ter transmitido conteúdo com eficiência perfeita e não ter começado o processo.
Há ainda um efeito mais profundo, e é o que interessa a uma escola católica. O maravilhamento diante da criação inclina à virtude. Quem experimenta que a realidade é ordenada, bela e inteligível tende a tratá-la com reverência; quem a experimenta como caos indiferente tende a usá-la como quiser. A admiração educa a vontade sem passar por nenhum sermão, e é por isso que é elemento essencial para qualquer professor que queira ensinar de modo autêntico.
Por que o homem se alegra ao entender
Falta o fundamento antropológico, e ele responde à pergunta de por que tudo isso funciona.
Boécio, na Consolação da Filosofia, trata da felicidade verdadeira como bem perfeito (livro III) e distingue os graus do conhecer, sentido, imaginação, razão e intelligentia (livro V, prosas 4-5), esta última a mais alta. As almas inteligem, e encontram felicidade ao se dedicarem às coisas intelectuais.
O princípio geral é este: todo ser se alegra quando exerce a operação que lhe é própria e alcança o fim para o qual existe. O pássaro voando, o cão farejando, a videira frutificando, cada natureza tem sua plenitude, e alcançá-la é o que se chama felicidade. Felicidade não é sensação agradável: é aperfeiçoamento e plenitude de uma natureza.
Se assim é, e se a operação própria do ser humano é conhecer a verdade e amar o bem, então a alegria de entender não é efeito colateral do aprendizado. É o sinal de que o aprendizado é conatural ao homem, de que ali a criatura está fazendo aquilo para que foi feita.
E aqui está o passo final. Diferentemente dos animais, cujos apetites se satisfazem, o ser humano tem uma sede que nada finito apaga. Conhece uma verdade e quer outra. Alcança um bem e quer mais. Essa sede não é defeito de projeto: é sede de Deus, princípio e fim de todas as coisas, como Santo Agostinho formulou de uma vez por todas ao dizer que nosso coração permanece inquieto até repousar Nele (Confissões I, 1).
O que significa, para nós, algo bem concreto: cada vez que um aluno experimenta a alegria de compreender, ele experimenta uma pequena amostra daquilo para que foi criado. Não é o mesmo que rezar. Mas é da mesma família, e prepara o terreno.
Um professor de matemática que conduz um aluno até o instante em que a demonstração se fecha e o aluno diz “ah!”, esse professor tocou, sem saber, a coisa mais alta de que aquela criança é capaz.
Educação clássica não é uma lista de matérias
Uma conclusão que precisa ser dita porque desfaz um mal-entendido corrente.
O homem foi criado para o conhecimento; o ensino técnico, bem executado, alimenta a alma e aponta para Deus; e a educação clássica é um modo de pensar e de buscar a verdade, não um conjunto específico de disciplinas.
Isso é importante contra uma confusão frequente. Educação clássica não é a escola que tem Latim, Grego e Retórica no currículo, embora estas sejam ótimas e nós as tenhamos. Uma escola pode ter as três e ser inteiramente moderna no método, se as ensinar como acumulação de conteúdo desconexo. E um professor de Química pode ser plenamente clássico se ensinar sua matéria mostrando a ordem, exigindo raciocínio e conduzindo ao espanto.
O clássico está no modo, não na lista. É boa notícia para todo professor de matéria “técnica”: você não está em desvantagem nesta escola. Está exatamente onde a ordem do mundo se mostra com menos intermediação.
A pergunta que fica
Como manter o senso de encanto diante da criação de Deus em meio às exigências da rotina, as correções, os prazos, a repetição, o cansaço de dezembro?
É uma pergunta honesta: ninguém se maravilha por decisão da vontade, e um professor esgotado não produz espanto em ninguém. Não se trata de uma técnica pedagógica a mais, mas de algo anterior, que sustenta o próprio professor antes de sustentar a aula.
É desse cuidado com quem ensina, e não só com o que se ensina, que nasce o maravilhamento que a Acutis procura despertar em cada aluno.
Conheça a Acutis Academy e uma educação que começa pelo espanto diante da verdade, não pela memorização.
Para ir além
- PLATÃO. Teeteto, 155d.
- ARISTÓTELES. Metafísica, I, 2, 982b12; e Ética a Nicômaco, livro X.
- BOÉCIO. A Consolação da Filosofia, livro III e livro V, prosas 4-5.
- SANTO AGOSTINHO. Confissões, I, 1.
- SANTO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica I-II, qq. 1-5.
- PIEPER, Josef. Felicidade e Contemplação; Ócio e Culto.
- KENTENICH, Pe. Joseph. Escritos sobre a união entre doutrina e vida.
- HUGO DE SÃO VÍTOR. Didascálicon: da arte de ler, livro III.

