Convém começar desfazendo uma impressão que a existência de uma escola com mil e setecentos alunos naturalmente produz: a de que houve um projeto.
Não foi um plano de negócios
Não houve. Não existiu plano de cinco anos, não existiu estudo de mercado, não existiu decisão empresarial de entrar no setor educacional. O que existiu foi uma sequência de coisas que não pedimos, algumas que não entendemos na hora, e uma quantidade de orações feitas sem a menor ideia do que resultaria delas.
Contamos isso não por falsa modéstia. Contamos porque a história, do modo como aconteceu, é a única explicação honesta que temos, e porque quem trabalha na escola hoje tem direito de saber de onde ela veio.
2014: o ano em que a educação entrou em nossa vida
Nada disso começou com educação. Começou com um susto.
Em 2014 participamos de um evento sobre o que então se discutia sob o nome de ideologia de gênero e sua entrada nos currículos escolares brasileiros. Fomos por preocupação de pais, não por interesse profissional. Saímos de lá com a percepção de que o assunto era muito maior do que imaginávamos e que tocava em algo anterior a qualquer política pública: a concepção de ser humano que a escola transmite às crianças sem dizer que está transmitindo.
Nos meses seguintes, o estudo levou a leituras que não estavam no plano, a história da pedagogia brasileira, a formação das faculdades de educação, a filosofia política que as atravessou a partir dos anos 1970. Foi um período de leitura desordenada e intensa, do tipo que acontece quando alguém descobre que não entende algo que julgava óbvio.
Duas influências foram decisivas nesse momento, e é justo nomeá-las.
A primeira foi o Prof. Felipe Nery, pedagogo, ex-diretor do Colégio São Bento de São Paulo, que naquela época percorria o país falando sobre educação a plateias de pais. Foi ouvindo-o que a ficha caiu de vez: o problema não era um conteúdo indevido num livro didático. O problema era a antropologia, a resposta que a escola dá, por baixo de tudo, à pergunta sobre o que é uma pessoa humana. E se o problema estava aí, então nenhum ajuste de currículo resolveria.
A segunda foi o contato com o trabalho do Prof. Olavo de Carvalho, cujo diagnóstico da vida intelectual brasileira nos deu, à época, o vocabulário para entender o que estávamos vendo.
Por que educação e não política
Foi então que tomamos a decisão que definiu tudo o que veio depois, e ela foi tomada por um raciocínio simples.
O ambiente em que nos movíamos naqueles anos era intensamente político, e havia muita gente boa fazendo trabalho de contenção: denunciar, resistir, impedir. Trabalho necessário. Mas percebemos que era um trabalho estruturalmente defensivo, um contra-ataque. Reagia-se sempre ao que o outro lado propunha, e portanto sempre depois, e sempre no terreno escolhido por ele.
A educação era diferente. Fundar uma escola não é impedir nada. É construir uma coisa que não existia. É ocupar terreno em vez de defendê-lo. Nesse sentido, e a imagem é deliberada, a educação é ataque, não contra-ataque. Não depende do adversário para saber o que fazer amanhã.
Havia também uma segunda razão, mais dura. A chamada cultura da morte ataca três pilares: a vida, a família e a educação. Nos dois primeiros, é possível mostrar evidência material, uma ultrassonografia mostra um coração batendo, e os efeitos da destruição de uma família aparecem no rosto de uma criança em poucos meses. No terceiro, não. A educação é o pilar mais difícil de defender, porque o dano é invisível no curto prazo e só se manifesta uma geração depois. Ninguém consegue fotografar uma inteligência que foi mal formada aos dez anos.
Isso significa que quem trabalha em educação não tem o recurso da evidência. Tem que argumentar, e para argumentar precisa estudar sem parar, e, mais que isso, precisa manter vida espiritual, porque é um trabalho cujos frutos ninguém verá dentro do próprio tempo de trabalho. Quem entra nisso esperando resultado visível desiste em dois anos.
A decisão de educar em casa
Paralelamente à teoria, havia a prática, e a prática era doméstica.
Chegamos à conclusão de que não havia, ao nosso alcance, uma escola à qual pudéssemos entregar nossos filhos com tranquilidade. E tomamos a decisão de educá-los em casa.
Hoje isso soa como uma opção entre outras. Há dez anos, era quase inconcebível no Brasil. Não havia comunidade, não havia material em português, não havia com quem comparar. A sensação era de estar fazendo algo simultaneamente óbvio e insensato, e não havia como saber qual das duas coisas.
O que mudou isso foram as redes sociais. Ao começarem a aparecer outras famílias fazendo o mesmo, em outros estados, com outras histórias, chegando às mesmas conclusões por caminhos independentes, ficou claro que não era uma excentricidade nossa. Havia um movimento, e havia muito mais gente do que se imaginava sozinha em casa, achando que era a única.
Essa descoberta é a semente de tudo. Porque, se havia tantas famílias assim, então o que faltava não era convicção. Era estrutura.
2019: a Escola Atlas
Em 2019 nasceu um trabalho pequeno e sem nenhuma pretensão institucional: um curso online de História e Geografia, chamado Escola Atlas.
A intenção era servir a famílias que educavam em casa e precisavam de aulas dessas duas disciplinas. Era o que sabíamos fazer, Edmilson é historiador, e era o que estava ao alcance.
E cresceu de um modo que não estava previsto. Muito mais alunos do que a estrutura suportava, e famílias pedindo mais matérias, mais séries, mais acompanhamento.
Com o crescimento veio o problema que nenhum entusiasmo resolve: certificação. Uma família pode educar os filhos em casa com excelência absoluta, mas em algum momento aquele jovem vai querer entrar numa universidade, e para isso precisa de documentação escolar reconhecida. Sem isso, todo o trabalho fica pendurado no ar.
Passamos a procurar uma solução, e a busca durou muito mais do que gostaríamos de admitir.
A bandeira
A solução não estava no Brasil. Estava nos Estados Unidos.
Encontramos uma escola católica americana com décadas de experiência em educação clássica e ensino domiciliar, acreditada e estruturada, com um programa formal de parcerias: a Kolbe Academy, de Napa, na Califórnia. Escrevemos. Houve reuniões. Explicamos o que estávamos tentando fazer no Brasil, para quantas famílias, com que finalidade.
E eles aceitaram, de um modo inédito no histórico da instituição, que até então não havia firmado parceria semelhante com um projeto brasileiro.
Foi em algum momento depois disso que a ficha caiu sobre a metade de um recado que havíamos recebido e não entendido.
Porque, em 2022, ou 2023, a memória divide-se sobre o ano, durante um período de oração, uma pessoa que não conhecíamos nos procurou para entregar uma mensagem. Duas imagens, sem explicação: cana-de-açúcar e a bandeira dos Estados Unidos.
Não fazia sentido. Não tínhamos nenhuma relação com os Estados Unidos e nenhuma com cana-de-açúcar. Agradecemos, guardamos, e seguimos sem entender.
A bandeira acabava de se explicar.
O nome
Com a parceria firmada, era preciso batizar o projeto. E havia um nome escolhido: Beda Academy, em homenagem a Beda, o Venerável, o monge inglês do século VIII, Doutor da Igreja, autor da História Eclesiástica do Povo Inglês e padroeiro dos historiadores. Para uma escola fundada por um historiador, era perfeito.
Só que, durante a oração, veio insistentemente outro nome. Não uma voz, nada extraordinário: aquele tipo de pensamento que volta sem ser chamado e não vai embora. O nome era Carlo Acutis.
Fazia menos sentido que Beda, em termos de projeto. Carlo Acutis era, em 2023, um beato muito recente, adolescente, italiano, sem relação nenhuma com história ou com educação clássica.
Mudamos o nome.
E hoje é impossível olhar para trás e não ver o que estava sendo indicado. Uma escola que ia funcionar pela internet, atendendo famílias em todo o Brasil por meio de telas, num tempo em que a tela é o principal instrumento de destruição da infância, colocada sob o patrocínio do santo que usou exatamente aquele instrumento para o contrário. Não havia como enxergar isso na hora. Só depois.
E há o resto da história dele, que é preciso contar porque diz respeito a este país.
Escolhemos o nome quando ele ainda era beato. Ele foi canonizado enquanto a escola crescia.
O investimento
Faltava dinheiro. Não pouco: o necessário para transformar um curso online numa instituição com estrutura, equipe e sistema.
Não tínhamos. E não tínhamos a quem pedir.
Fizemos uma novena a Carlo Acutis. Durante aquela novena, uma família se apresentou espontaneamente para realizar o investimento necessário. Não fomos procurá-la. Não houve captação, nem proposta, nem apresentação de projeto a investidores.
Podemos dizer que foi coincidência, e quem quiser dirá. Nós rezamos nove dias pedindo uma coisa específica e a coisa específica aconteceu dentro dos nove dias. Registramos o fato como aconteceu e deixamos o leitor com ele.
O canavial
Faltava a outra metade do recado.
O crescimento exigiu, em determinado momento, presença física, um endereço, uma sede, um lugar para atendimento e para a equipe. Começamos a procurar imóvel na cidade.
E encontramos um prédio que estava abandonado havia vinte anos. Grande, vazio, esquecido, com aquele silêncio particular dos lugares onde ninguém entra há muito tempo. Fomos vistoriá-lo.
Percorremos o interior, avaliamos o que precisaria de reforma, e então saímos nos fundos.
Nos fundos havia uma plantação de cana-de-açúcar.
Ficamos parados ali um tempo, olhando aquilo. Não havia nada de sobrenatural na cena. Era um canavial comum, atrás de um prédio comum, numa cidade comum. E era a segunda metade de uma mensagem entregue por uma desconhecida anos antes, que havíamos guardado sem entender e sem esperar entender.
A bandeira era a parceria. A cana era a sede.
Sobre como ler uma história assim
Não somos ingênuos quanto ao gênero deste texto. Relatos de sinais e coincidências providenciais são fáceis de escrever, difíceis de verificar, e o mundo católico produz mais deles do que seria prudente.
A Igreja tem, para isso, um critério antigo e sóbrio: julga-se pelos frutos. Nenhuma revelação particular obriga ninguém a nada, e o discernimento se faz não pela intensidade da experiência, mas pelo que ela produz, se produz caridade, obediência, humildade e bem concreto, ou se produz vaidade e agitação.
Por isso preferimos apresentar a história como fato narrado, sem exigir do leitor mais crença do que ele queira dar. Não pedimos que ninguém aceite que houve profecia. Pedimos apenas que se registre a sequência: a mensagem veio antes, e as duas coisas aconteceram depois. O que fazer com isso, cada um faz.
O que sabemos, e é o suficiente para trabalhar, é que não fomos nós que planejamos. E que a escola não é nossa.
O que isso nos obriga
Uma história assim é bonita de contar e é, na verdade, um peso.
Se a instituição nasceu de coisas que não controlamos, então não podemos tratá-la como propriedade. Um empresário que constrói uma empresa com o próprio esforço tem direito de dispor dela. Quem recebeu algo é depositário, e depositário presta contas.
E isso vale para todos que trabalham aqui, não só para nós. A escola tem hoje mil e setecentos alunos e sustenta diretamente noventa e seis famílias. É um número que ainda nos assusta, porque nenhum dos dois cenários que imaginávamos em 2019 se parecia com isto.
Que ela chegou aqui não é mérito de gestão. E o modo de agradecer não é sentimento, é fazer o trabalho bem feito, todos os dias, incluindo as partes do trabalho que ninguém vê.
Por isso a devoção a São Carlo Acutis não é decoração institucional nem estratégia de identidade visual. É reconhecimento de uma dívida. Cada etapa desta história tem a marca dele: o nome, o investimento, e o improvável acerto de ter colocado uma escola que funciona por telas sob a proteção do primeiro santo que soube usá-las.
Ele é o padroeiro. Continua sendo o principal intercessor. E, honestamente, tem trabalhado muito mais nesta escola do que nós.
A pergunta que fica
Toda pessoa que trabalha numa instituição carrega uma resposta silenciosa à pergunta sobre o que aquilo é. Emprego. Carreira. Projeto. Missão.
Qual é a sua?
Não a resposta que se dá em reunião. A que aparece na terça-feira de manhã, quando o dia está ruim e ninguém está vendo.
Conheça a Acutis Academy e a história de uma escola que os próprios fundadores dizem não ter planejado.
Para ir além
- São Carlo Acutis, os documentos da beatificação (2020) e da canonização (2025), disponíveis no portal do Vaticano; e as memórias escritas por sua mãe, Antonia Salzano Acutis (confirmar o título da edição brasileira).
- BEDA, O VENERÁVEL. História Eclesiástica do Povo Inglês. O nome que a escola quase teve.
- NERY, Felipe (org.). Gênero: Ferramenta de Desconstrução da Identidade. São Paulo: Katechesis.
- PIO XI. Divini Illius Magistri (1929). Sobre o direito anterior da família na educação dos filhos, fundamento de todo ensino domiciliar católico.
- CONCÍLIO VATICANO II. Gravissimum Educationis (1965), § 3.
- Sobre o discernimento de sinais e revelações particulares: Catecismo da Igreja Católica, § 67; e SANTO INÁCIO DE LOIOLA, Exercícios Espirituais, Regras de Discernimento dos Espíritos.

