Faça o teste com uma turma de ensino médio. Pergunte que relação existe entre a Revolução Industrial que estudaram em História, as leis da termodinâmica que estudaram em Física e o romance realista que estão lendo em Literatura.
O sintoma que todo professor conhece
O silêncio será completo. E não porque sejam alunos ruins, os melhores ficarão igualmente calados. Ficarão calados porque a pergunta lhes parece estranha, quase ilegítima. História é História. Física é Física. Literatura é Literatura. Cada uma tem seu professor, seu horário, sua prova, seu caderno. Por que deveriam se relacionar?
Aquele silêncio é o resultado mais bem-sucedido da educação moderna. Não é falha: é exatamente o que o sistema foi construído para produzir. Um aluno que domina compartimentos e não tem ideia do que está entre eles.
E o efeito não fica na escola. Sai com ele.
A vida em caixinhas
Porque a pessoa formada nesse modelo aprende a fazer o mesmo com a própria vida. Cria compartimentos e vive dentro deles, um por vez, sem que se comuniquem.
Há a caixinha da escola, onde se pensa e se estuda. A caixinha da família, onde se convive e se ama. A caixinha da igreja, onde se reza, domingo de manhã, uma hora. A caixinha do trabalho, onde valem outras regras. A caixinha da política, onde valem regras ainda diferentes. E a pessoa transita entre elas com uma desenvoltura que não percebe ser esquizofrênica.
O resultado é que se pode ser católico devoto na missa e utilitarista impiedoso na reunião de segunda-feira, sem sentir contradição alguma, porque não há canal entre as caixinhas por onde a contradição pudesse passar.
Isso é o que se chama uma vida sem unidade. E como uma vida é uma só, o que acontece de fato não é que ela se divida: é que uma das caixinhas passa a governar as outras sem dizer. Normalmente a do trabalho.
O que a modernidade perdeu, exatamente
Vale nomear a perda com precisão, porque não é a perda de conteúdo. Nunca se soube tanto. A humanidade nunca teve tanta informação disponível, nem tantos especialistas tão competentes em seus campos.
O que se perdeu foi a capacidade de relacionar, a operação da inteligência que percebe que duas coisas aprendidas separadamente têm a ver uma com a outra.
Essa capacidade é o próprio ato de inteligir. A palavra inteligência vem de intus legere: ler dentro. E ler dentro das coisas é justamente ver o que as liga, o que uma tem da outra, onde se encaixam. Um homem que sabe muitas coisas e não vê nenhuma ligação entre elas não é inteligente; é um arquivo.
Aristóteles definia a sabedoria como o conhecimento pelas causas mais altas, isto é, o conhecimento que sabe onde cada coisa se situa no conjunto. Santo Tomás, seguindo-o, dizia que é próprio do sábio ordenar. Ordenar é a operação suprema da inteligência, e ordenar significa colocar cada coisa em relação às outras e ao todo.
A escola moderna faz exatamente o contrário. Especializa, separa, isola, aprofunda em silos. E chama a isso rigor.
Por que só um cristão pode ordenar tudo
E agora o passo do argumento que é o mais forte, e que não é uma afirmação piedosa: é uma afirmação lógica.
Só é possível relacionar todas as coisas entre si se todas as coisas tiverem uma origem comum.
Pense no que essa condição exige. Para que a Física e a Literatura possam dialogar, é preciso que ambas tratem, por caminhos diferentes, de uma mesma realidade. Para que a História tenha sentido e não seja sucessão de acidentes, é preciso que haja um sentido a ser encontrado nela. Para que a Matemática descreva o mundo, e o fato de que descreve é o mistério mais desprezado da ciência moderna, é preciso que o mundo tenha sido pensado antes de existir.
Se o universo é produto do acaso, nada disso se sustenta. Sem origem comum, não há relação real entre os saberes; há apenas o hábito humano de agrupá-los por conveniência. As disciplinas ficam sendo o que a universidade moderna de fato acredita que sejam: departamentos administrativos.
Mas se existe uma Inteligência criadora, e se todas as coisas foram feitas por ela, então há uma unidade objetiva por baixo da diversidade dos saberes. Estudar Biologia e estudar Poesia é aproximar-se da mesma Mente por duas portas diferentes. A ordem que a Física encontra na matéria e a ordem que a Ética encontra na conduta são a mesma ordem, vista em objetos diversos.
É a isso que se chama ordem da criação, e a expressão não é decorativa. Significa que o mundo é organizado porque é obra de alguém organizado, e que por isso pode ser conhecido de modo unificado. O Livro da Sabedoria já o dizia: Deus dispôs todas as coisas em medida, número e peso (Sb 11,21), versículo que Santo Agostinho citou incansavelmente e que atravessa toda a tradição das artes liberais.
Consequência inescapável: uma escola que não é teocêntrica não pode ser integral, ainda que queira. Não por má vontade, por falta de fundamento. Sem um centro, não há como ordenar em torno de que. E sem ordenação, o que resta é a grade horária.
Hugo de São Vítor e o mapa que temos há novecentos anos
A boa notícia é que esse problema já foi resolvido, e muito bem, num tratado que quase ninguém lê.
Por volta de 1127, em Paris, um cônego regular chamado Hugo de São Vítor escreveu o Didascálicon: da arte de ler. A Abadia de São Vítor era então a escola mais importante da Europa, urbana, aberta a estudantes de toda parte, uma geração antes de surgir a universidade.
O que Hugo faz nesse livro é o que nenhuma escola brasileira tem: um mapa completo dos saberes, mostrando onde cada um se situa e a que serve. Divide o conhecimento em quatro grandes ramos, teórico, prático, mecânico e lógico, e neles distribui a filosofia, a matemática, a física, a ética, a política, a economia, as artes mecânicas (que ele não despreza: inclui expressamente a agricultura, a caça, a medicina, a navegação, o teatro) e a lógica com suas partes. E mostra como cada um prepara para o seguinte, e todos para a leitura da Escritura e a contemplação de Deus.
Hugo estava resolvendo o mesmo problema que temos. E deixou algumas frases que deveriam estar na parede de toda sala de professores. Uma delas: aprenda tudo, depois você verá que nada é supérfluo. Nenhum aprendizado é perdido, porque tudo se conecta a tudo, mesmo quando não se vê como.
E ele explica a ordem da leitura, o papel da humildade no estudo, a diferença entre ler para saber e ler para se transformar. É um manual de método intelectual escrito por quem tinha um mundo unificado na cabeça.
A razão precisa ser educada para que a graça atue
Falta um último elemento, e é o que impede este artigo de virar puro intelectualismo.
É verdade que a capacidade de relacionar as coisas aparece em almas simples. Todo mundo já conheceu uma senhora de pouca escolaridade cuja sabedoria prática humilha três doutores, que entende de gente, de vida e de Deus com uma clareza que nenhum curso dá. Isso existe, é real, e é um dom.
Mas é raro, e não é transmissível. Não se pode organizar uma escola em torno da esperança de que apareçam almas assim.
O princípio clássico é: a graça não destrói a natureza, mas a supõe e a aprimora. Isto é, Deus age sobre o que encontra. Numa inteligência educada, ordenada, capaz de distinguir e relacionar, a graça tem com que trabalhar. Numa inteligência confusa, ela também age, Deus não depende de nós, mas encontra menos matéria disposta.
Essa é a razão de existir de uma escola católica, e é a única razão que não se pode substituir por outra instituição. Não é dar catequese: a paróquia dá. Não é formar para o mercado: qualquer escola faz. É educar a razão de modo que a graça encontre uma natureza preparada, e depois deixar Deus fazer o resto, que é a parte maior e não nos pertence.
Foi isso que Pio XI escreveu em 1929, na Divini Illius Magistri, e continua sendo a formulação mais exata do assunto: a educação não é neutra, tem um fim último que é sobrenatural, e toda pedagogia que ignore o destino eterno do educando está formando alguém para uma vida que ele não vai viver.
A pergunta que fica
Um aluno seu aprende uma coisa na sua aula que contradiz o que aprendeu na aula anterior. Talvez uma visão do homem, uma ideia sobre a natureza, uma noção de justiça.
Ele tem a quem levar essa contradição?
Se a resposta é não, se cada professor cuida do seu compartimento e ninguém é responsável pelo conjunto, então a escola está produzindo, com toda a competência, o silêncio com que este artigo começou.
Uma escola integral não é a que tem mais disciplinas. É a que tem alguém responsável pelas ligações entre elas.
É essa unidade que a Acutis procura oferecer: um conhecimento que se liga porque parte de um mesmo centro.
Conheça a Acutis Academy e uma educação que liga as coisas em vez de separá-las em caixinhas.
Para ir além
- HUGO DE SÃO VÍTOR. Didascálicon: da arte de ler. Petrópolis: Vozes. Comece pelo Livro III (a ordenação dos saberes) e pelo Livro VI (como ler). Não é longo e é o texto mais útil desta série.
- PIO XI. Divini Illius Magistri (1929). Especialmente os §§ 7-12 e 58-62.
- CONCÍLIO VATICANO II. Gravissimum Educationis (1965).
- NEWMAN, John Henry. A Ideia de uma Universidade. O clássico sobre o "círculo dos saberes" e o que se perde quando uma disciplina se isola.
- MARITAIN, Jacques. A Educação na Encruzilhada. A crítica filosófica mais rigorosa à fragmentação do currículo.
- PIEPER, Josef. Ócio e Culto.
- Sagrada Escritura: Sb 11,21; Cl 1,15-17; Jo 1,1-3.

