Existe uma imagem enganosa da vontade de Deus, e ela impede muita gente de encontrá-la.
Na imagem enganosa, a vontade de Deus é um plano oculto que precisa ser decifrado, uma resposta escondida para grandes perguntas: que profissão seguir, com quem casar, onde morar. E a vida espiritual vira uma investigação: rezar pedindo sinais, examinar coincidências, tentar adivinhar.
Há uma verdade nisso, Deus de fato chama cada um a um caminho, e o discernimento é assunto sério. Mas essa imagem, tomada isoladamente, deixa a pessoa numa busca permanente por algo que está em outro lugar. Porque a vontade de Deus não está principalmente no futuro. Está no presente.
Ela se manifesta em algo muito mais acessível do que um plano secreto: naquilo que Deus quer ou permite em cada momento.
O trânsito parado agora. A conversa que você preferiria não ter. O diagnóstico. A conta que não fecha. O cansaço de hoje. A alegria de hoje, também. Nada disso é interrupção da vontade de Deus enquanto você tenta descobri-la. É ela.
Jean-Pierre de Caussade, jesuíta do século XVIII, deu a essa realidade um nome que a tornou inesquecível: o sacramento do momento presente. Sacramento porque, como os sacramentos, o momento presente é um sinal humilde através do qual a graça efetivamente passa, e passa ali, não em outro lugar mais nobre que se esperava.
Daqui decorre uma consequência que, quando ouvida pela primeira vez, incomoda.
Se a vontade de Deus se manifesta no que Ele quer ou permite em cada momento, então rejeitar esse momento é rejeitar a Sua vontade. E é assim que a reclamação habitual, a murmuração, o "por que isso comigo", o "não era assim que devia ser", deixa de ser um hábito neutro e se revela como raiz de pecado.
Não porque seja proibido sentir dificuldade. A angústia não é pecado; Cristo a sentiu no Getsêmani. Não é pecado dizer a Deus que aquilo é pesado, os salmos estão cheios disso, e o próprio Cristo disse afasta de mim este cálice.
O que está em causa é outra coisa: é o consentimento na desconfiança. É o movimento interior que conclui que Deus errou, que Ele não está cuidando, que aquela situação é prova de abandono. Isso não é uma emoção, é um juízo. E é um juízo contra a Providência.
Note-se que o próprio Cristo mostra a distinção completa na mesma frase. Disse afasta de mim este cálice, pediu com verdade, sem fingir que estava tudo bem. E acrescentou: não como eu quero, mas como Tu queres. O pedido é legítimo. O que se mantém intacto é a confiança.
Chegamos ao ponto mais difícil, e é preciso tratá-lo sem dourar nada.
O sofrimento não é bom em si. É um mal, consequência do pecado no mundo, e a Igreja nunca ensinou que se deva buscá-lo nem que sofrer seja em si meritório. Combater a dor, tratar a doença, corrigir a injustiça, tudo isso é obra boa e é dever.
Mas o sofrimento que não pode ser evitado pode ser transformado. Permanecer fiel a Deus durante o sofrimento é o testemunho mais completo de entrega à Sua vontade, precisamente porque naquele momento não há nenhum benefício aparente em fazê-lo. Quando tudo vai bem, é fácil confundir amor a Deus com satisfação com a própria vida. Quando tudo desmorona e a pessoa permanece, aquilo é amor, e não pode ser outra coisa.
Aqui está uma distinção que precisa ser dita com clareza, porque muita gente sofre de uma confusão que a machuca: a fé não é um sentimento.
Uma pessoa pode atravessar meses sem sentir nada na oração, sem consolação alguma, e estar naquele período crescendo mais em caridade do que em anos de fervor sentido. Porque a caridade é ato da vontade, não do afeto. Amar a Deus é querer o que Ele quer, e isso não depende de estar sentindo algo.
Os santos que atravessaram longas noites escuras, e são muitos, e alguns dos maiores, não estavam em crise de fé. Estavam sendo purificados exatamente daquilo que ainda misturavam com a fé: a expectativa de retribuição sensível. O modelo é a união de Cristo com o Pai na Paixão. Ali não havia consolo nenhum. Havia obediência amorosa no escuro absoluto, e foi ali que a nossa salvação se realizou.
Aqui surge a objeção que qualquer pessoa sensata levanta contra tudo o que foi dito até aqui.
Se o abandono à Providência é a atitude correta, onde fica a prudência? Fazer uma reserva financeira é falta de fé? Contratar um seguro é desconfiança? Preocupar-se com o futuro dos filhos é murmuração?
A resposta honesta é que não existe uma regra única, e é importante que não exista, porque uma regra externa dispensaria a pessoa daquilo que Deus quer nela, que é o discernimento.
A prudência é virtude cardeal, não concessão à fraqueza. Santo Tomás lhe dedica um tratado inteiro e a define como a virtude que aplica a razão reta ao agir. Poupar, planejar, prevenir, cuidar, tudo isso é exercício de prudência, e uma pessoa que não o faz não é confiante, é negligente. Deus não pede que ninguém abdique da inteligência que Ele mesmo deu.
O que distingue prudência de desconfiança não está no ato, mas na intenção. Duas pessoas podem fazer exatamente a mesma poupança. Uma o faz porque é boa administradora do que lhe foi confiado, e dorme em paz. A outra o faz porque está convencida de que, se algo falhar, ninguém a socorrerá, e nunca é suficiente, porque a insegurança não tem fundo. O ato é idêntico; a raiz é oposta.
Daí o critério prático, que é o único que funciona: examine se a preocupação tem fim. A prudência é finita, providencia o que é razoável e descansa. A desconfiança é insaciável, porque não está procurando segurança: está tentando substituir a Providência.
A tradição espiritual conserva uma pequena história que resume tudo isto melhor do que qualquer tratado.
Conta-se que um grande pregador encontrou um mendigo e o cumprimentou, desejando-lhe um bom dia. O mendigo respondeu que nunca tinha tido um dia ruim. Surpreso, o pregador desejou-lhe então uma vida feliz, e ouviu que ele nunca havia sido infeliz.
Pressionado a explicar, o mendigo disse algo assim: quando faz sol, agradeço a Deus; quando chove, agradeço a Deus; quando tenho o que comer, agradeço; quando passo fome, agradeço. E como a vontade de Deus é a minha vontade, e o que agrada a Ele me agrada, por que eu diria que sou infeliz?
O pregador perguntou quem ele era. O mendigo respondeu que era um rei. Perguntado onde estava seu reino, apontou para o próprio coração.
A história é atribuída ao pregador dominicano Johannes Tauler, e a lição que ela carrega é autenticamente dele. O que a parábola diz é que a felicidade não depende de circunstâncias, e o motivo é preciso: quem quer o que Deus quer sempre obtém o que quer. Não há como frustrá-lo. Não é resignação passiva nem indiferença aos próprios males, é a coincidência da vontade própria com a vontade de Deus, e essa coincidência é literalmente inatacável.
É o mesmo que Santo Agostinho descobriu por outro caminho e disse na primeira página das Confissões: nosso coração é inquieto até repousar em Deus. Quem repousa nele não tem mais o que perder.
Nada disto é abstrato, e o teste é doméstico.
A vontade de Deus para você, hoje, é a conversa difícil que você vai ter, a tarefa atrasada, o cansaço que está sentindo, o filho que precisa de atenção quando você não tem energia. Não é um plano grandioso que se revelará depois. É isso. E a paz que a fé promete realiza-se ali, não em outro lugar, não numa vida que você tivesse mais tempo, mais saúde, menos problemas. Nesta.
O que se pede não é heroísmo. É consentimento, repetido muitas vezes ao dia, num movimento interior de dois segundos: seja feito.
Pense na circunstância da sua vida com que você mais briga por dentro. Aquela que você não escolheu, não consegue mudar, e sobre a qual reclama há meses ou anos. Você já tentou recebê-la das mãos de Deus?
Não no sentido de desistir de melhorá-la, se pode ser mudada, mude. Mas, enquanto ela existir, recebê-la de Deus em vez de brigar com Ele por causa dela. É provável que essa circunstância específica seja, hoje, o lugar exato onde a sua paz está esperando por você. Costuma ser.
Essa é a visão de mundo que sustenta a Acutis Academy, e que procuramos transmitir, junto com o conhecimento, a cada um dos nossos alunos.
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