Há uma frase em São Pedro que, se não estivesse na Escritura, pareceria blasfêmia. Falando das promessas de Deus, ele escreve que por elas nos tornamos participantes da natureza divina (2Pd 1,4).
Participantes da natureza divina. Não admiradores de Deus. Não servos obedientes de Deus. Participantes da natureza dele.
Os Padres da Igreja não recuaram diante disso, ao contrário, fizeram dessa frase o eixo de toda a sua teologia da salvação, formulando-a num axioma que atravessa Santo Irineu e Santo Atanásio e que o Catecismo da Igreja Católica recolhe no § 460: o Filho de Deus se fez homem para que o homem se tornasse deus.
A palavra grega para isso é theosis, em português, teose ou, mais comumente, divinização. É vocabulário mais familiar aos cristãos orientais, mas é patrimônio comum, e a Igreja Católica o sustenta integralmente.
É importante dizer o que a afirmação não significa, porque a expressão assusta. Não significa que o homem se torne Deus por natureza, a distinção entre Criador e criatura é absoluta e permanece por toda a eternidade. A palavra que carrega todo o peso é participação: como o ferro em brasa participa do fogo e passa a queimar, sem deixar de ser ferro e sem se tornar a origem do fogo. A imagem é dos Padres e é a melhor que existe.
O processo não começa por um esforço nosso. Começa por um sacramento.
No batismo, a pessoa recebe a graça santificante, que não é um favor divino, nem um sentimento, nem uma permissão de entrada no céu. É uma qualidade real infundida na alma, pela qual ela passa a participar da vida de Deus. Algo objetivamente novo passa a existir naquela criatura, e é por isso que o batismo não se repete: não se pode nascer duas vezes.
A partir dali, começa um processo de transformação. A tradição o chama de configuração ou conformação a Cristo: a graça vai remodelando aquela pessoa até que a semelhança com Cristo, obscurecida pelo pecado, seja restaurada, e restaurada, aliás, num grau superior ao original, o que a liturgia da Vigília Pascal celebra sem nenhum pudor.
Este é o ponto que reorganiza a vida espiritual, e vale enunciá-lo devagar: a vida cristã não é primariamente um esforço moral. É um processo de transformação em que a nossa parte é cooperar.
A diferença é decisiva na prática. Quem entende a vida cristã como esforço moral vive tentando ser melhor, e mede o progresso pelo número de falhas, e desanima, porque as falhas não acabam. Quem a entende como transformação vive consentindo numa obra que não é sua: recebe os sacramentos, reza, obedece, e deixa Deus trabalhar. O esforço continua sendo real e necessário, mas mudou de lugar. Já não é a causa da transformação; é a cooperação com ela.
E aqui a doutrina do purgatório, que costuma ser apresentada como assunto penoso e quase jurídico, revela-se como conclusão lógica de tudo o que foi dito.
Suponha uma pessoa que morra em estado de graça, unida a Deus, sem pecado grave, mas que ainda não esteja plenamente conforme a Cristo. Ainda tem apegos desordenados, hábitos não purificados, cantos da alma que nunca foram entregues. Não está condenada: morreu em amizade com Deus. Mas também não está pronta para a visão face a face.
O que acontece com essa pessoa?
É a essa pergunta que o purgatório responde. Ele não é uma prisão nem um castigo residual: é o acabamento de um processo que ficou incompleto. A purificação e transformação final daquilo que a vida terrena não completou. O Catecismo o define nesses termos (§§ 1030-1032), e o Concílio de Trento o definiu como doutrina de fé em 1563.
Vista assim, a doutrina deixa de ser sombria e passa a ser das mais consoladoras que a Igreja possui. Ela diz que Deus não desiste de uma alma que morreu amando-O apenas porque a obra não terminou. Ele a termina.
Qual é a diferença entre o sofrimento desta vida e o sofrimento do purgatório?
A resposta está na vontade, e é de uma precisão que ilumina também a nossa situação atual.
Nesta vida, a vontade humana é instável. Ela oscila. Numa hora quer Deus, na outra quer o oposto; adere e recua; ama e se retrai. Por causa dessa instabilidade, o sofrimento terreno é ambíguo: pode santificar ou pode endurecer. A mesma doença, o mesmo luto, a mesma humilhação pode aproximar uma pessoa de Deus e afastar outra, e às vezes as duas coisas na mesma pessoa, em semanas diferentes. O que decide não é o sofrimento; é o que a vontade faz com ele.
No purgatório, a vontade está fixa em Deus. A escolha fundamental já foi feita e é irrevogável; não há mais oscilação possível. E por isso todo sofrimento ali é, sem exceção e sem ambiguidade, santificante. Nada se perde. Cada dor é exatamente a purificação que ainda faltava.
Isso não torna o purgatório leve, a tradição é unânime em que se trata de sofrimento intenso. Mas explica a observação desconcertante de Santa Catarina de Gênova, no seu Tratado do Purgatório: as almas do purgatório sofrem uma dor que não tem comparação na Terra e, ao mesmo tempo, experimentam uma alegria que também não tem comparação, porque sabem para onde vão e sabem que cada instante daquela dor as aproxima.
E daqui se tira a lição para nós: a diferença entre um sofrimento que santifica e um que apenas machuca está na disposição da vontade.
Há uma dificuldade clássica que merece resposta direta: se Deus sabia que Adão e Eva iriam pecar, por que permitiu? E, mais amplamente, se Deus conhece tudo antecipadamente, em que sentido somos livres?
Três afirmações, e é preciso sustentar as três juntas.
Primeira: Deus está fora do tempo. Não "prevê" o futuro no sentido de antecipar mentalmente o que ainda não é. Para Deus não há antes nem depois: todo o tempo lhe está presente simultaneamente. Boécio formulou isso de modo insuperável na Consolação da Filosofia (livro V), definindo a eternidade como a posse simultânea e perfeita de uma vida sem limites, e é dele a solução do "presente eterno": Deus não vê o futuro adiantado, vê tudo presente.
Isso desfaz a dificuldade tal como ela é normalmente formulada. Deus conhecer o meu ato livre não o determina, do mesmo modo que a minha lembrança de um ato passado não o determinou. Conhecimento não é causa.
Segunda: Deus conhece o pecado, mas não o causa. Ele o permite, o que é categoria distinta. O pecado é uma privação, uma falta de bem, e tem por causa exclusiva a vontade criada que se desvia. Santo Tomás trata do problema na Suma Teológica (I, q. 14, a. 13).
Terceira, e é o coração da resposta: Deus nunca viola a liberdade humana. E não por respeito abstrato à autonomia, mas por uma razão muito mais séria.
A liberdade é condição da capacidade de amar.
Um amor que não pudesse ser recusado não seria amor. Seria funcionamento, como o de um mecanismo que responde ao estímulo previsto. Se Deus quis criaturas capazes de amá-Lo, teve necessariamente de criá-las capazes de recusá-Lo; a mesma faculdade que permite o "sim" é a que permite o "não". Não há como ter uma sem a outra.
Por isso a liberdade é chamada de dom, e não de risco calculado. É o preço que a própria Onipotência aceita pagar por ter, em vez de servos perfeitos, filhos capazes de amor.
E é também por isso que o pecado original é tão grave: não foi a violação de uma regra arbitrária sobre uma fruta, mas o uso do dom mais alto contra o Doador.
Uma palavra final, porque é uma dor que muitas famílias carregam em silêncio.
Quando uma criança morre, a Igreja não pede aos pais que suspendam a esperança. Se a criança foi batizada, a doutrina é serena: ela morreu em estado de graça, e a graça batismal é precisamente o que introduz na vida de Deus. E, quando não houve batismo, a Igreja não pronuncia condenação alguma: confia a criança à misericórdia de Deus, que quer que todos os homens se salvem e cujos caminhos não se limitam aos que nos foram revelados (Catecismo, § 1261).
Vale acrescentar algo sobre os sacramentos administrados no fim da vida, o batismo de emergência, a unção dos enfermos, que a pressa e a dor de um hospital podem fazer parecer gestos secundários. Não são. São exatamente o contrário: são o momento em que a Igreja faz a única coisa que efetivamente importa naquela hora. Uma família que consegue, em meio ao pior dia de sua vida, providenciar isso, fez pela pessoa amada mais do que toda a medicina disponível poderia fazer.
Você provavelmente já pensou na santidade como uma coisa que se conquista, algo a construir com esforço, disciplina e tempo.
E se ela for, principalmente, uma coisa que se permite?
Não que o esforço seja dispensável; não é. Mas a obra é de Deus, e a nossa parte é não obstruir. O que muda, quando se entende isso, é o lugar do desânimo: o fracasso deixa de ser prova de que não vai dar e passa a ser mais uma coisa a entregar.
É essa mesma verdade, a de que a fé transforma a pessoa por dentro, e não apenas acrescenta informação, que está no fundamento da Acutis Academy e da formação que oferecemos a cada aluno.
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