Antes de falar sobre perfeição, é preciso dizer uma palavra sobre Aquele em direção a quem se caminha, porque uma ideia errada de Deus produz automaticamente uma ideia errada de santidade.
O modo comum de pensar em Deus é atribuir-Lhe qualidades: Deus é bom, Deus é justo, Deus é misericordioso, Deus é amor. A gramática dessas frases é a mesma que usamos para pessoas, dizemos que alguém é bondoso como quem descreve uma característica que aquela pessoa possui e poderia não possuir.
Aplicada a Deus, essa gramática engana. Porque em Deus a essência não se distingue dos atributos. Deus não tem bondade: Deus é a bondade. Não possui justiça como quem possui uma virtude adquirida: é a justiça em pessoa. Não é amoroso, é o Amor, e todo amor que existe no mundo é participação naquele.
Isso tem nome na teologia: simplicidade divina, e Santo Tomás a trata na Suma Teológica (I, q. 3). Parece sutileza escolástica e não é. Tem uma consequência prática enorme.
Se Deus fosse um ser muito bom entre outros seres bons, aproximar-se dele seria uma questão de melhorar o comportamento, subir na escala. Mas se Deus é a bondade, o amor e a verdade em pessoa, então aproximar-se dele não é melhorar: é unir-se. E aí a santidade deixa de ser uma questão de desempenho moral e passa a ser uma questão de relação.
Guardemos isso, porque é a chave de tudo o que segue.
Agora a afirmação que dá título a este artigo, e que muita gente ouve pela primeira vez com espanto.
A perfeição cristã não é uma sugestão piedosa nem uma atividade opcional para os mais fervorosos. É um mandamento de Jesus Cristo.
As palavras estão no Sermão da Montanha, e são de uma exigência que a devoção morna costuma contornar: sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). Não "procurem melhorar". Não "façam o possível". Sede perfeitos, e o padrão dado é o próprio Deus. É a mesma exigência que atravessa toda a Escritura, desde o Levítico: sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo (Lv 19,2). E São Paulo é igualmente direto: a vontade de Deus é a vossa santificação (1Ts 4,3).
O Concílio Vaticano II não deixou espaço para dúvida quanto ao alcance disso. O capítulo V da Lumen Gentium, o documento central do Concílio sobre a Igreja, intitula-se precisamente "A vocação universal à santidade na Igreja". Universal: não dos religiosos, não do clero, não dos que sentem inclinação. De todos os batizados, em todo estado de vida.
O que isso significa concretamente para quem lê este texto: você não pode tratar a santidade como algo que não é da sua conta. Um pai de família com três filhos e duas jornadas de trabalho não está dispensado; está chamado à santidade naquela vida, e não em outra que ele não tem. Um professor com cento e cinquenta alunos e correções acumuladas não está dispensado; está chamado à santidade naquele trabalho.
Não existe categoria de católico praticante com isenção.
E aqui vem o alívio, que é grande, porque a exigência acima, mal entendida, esmaga.
A perfeição cristã não consiste em ausência de defeitos. Não é uma soma de virtudes acumuladas, não é o cumprimento impecável de um conjunto de práticas, não é serenidade permanente, não é nunca mais errar.
Santo Tomás formula com precisão a resposta da tradição: a perfeição da vida cristã consiste principalmente na caridade (Suma Teológica II-II, q. 184, a. 1).
Ou seja: perfeição é união com Deus pelo amor. É isso, e mais nada é isso.
A diferença entre as duas concepções é a diferença entre duas vidas espirituais inteiramente distintas. Se perfeição fosse ausência de defeito, o caminho seria a vigilância ansiosa sobre si mesmo, o inventário permanente das próprias falhas, e o desânimo garantido, porque os defeitos não acabam. Se perfeição é união pelo amor, o caminho é outro: crescer no amor a Deus, e deixar que esse crescimento vá corrigindo o resto, na ordem e no tempo que Ele determinar.
Isso não relativiza a luta contra o pecado, o pecado é precisamente o que obstrui o amor, e por isso se combate. Mas reordena as prioridades. Uma pessoa que ama muito a Deus e ainda tem defeitos visíveis está mais avançada do que uma pessoa de conduta irrepreensível e coração frio. A tradição é unânime nisso, e os santos que mais insistem no ponto são justamente os mais rigorosos.
O mandamento maior é conhecido: amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento (Mt 22,37). E, em seguida, o segundo: amar o próximo como a si mesmo.
A objeção que isso costuma provocar é sincera, e merece resposta séria. Se devo amar Deus acima de todas as coisas, isso não significa amar menos as pessoas concretas, meu cônjuge, meus filhos, meus amigos? Não há aqui uma competição em que Deus ganha e as criaturas perdem?
A resposta é que não, e o motivo é o que foi estabelecido no começo deste artigo.
Se Deus fosse um ser entre outros, sim, haveria competição: o afeto dado a um seria retirado do outro, como acontece entre criaturas. Mas Deus é o próprio Amor, princípio de todo amor que existe. Amá-Lo acima de tudo não é subtrair amor das criaturas, é plugar-se na fonte.
E o efeito verificável é o oposto do temido. Pela graça, a pessoa passa a amar os seus com um amor que excede aquilo de que seria capaz por conta própria: um amor sobrenatural, mais firme, menos dependente de humor e de retribuição, capaz de perseverar quando o afeto natural teria desistido. Quem já viu de perto um casamento longo sustentado na fé, ou uma mãe cuidando por décadas de um filho doente, sabe do que se trata. Aquilo não é resistência psicológica; é amor de outra ordem.
A prioridade de Deus, portanto, não é uma hierarquia de afetos em que os primeiros lugares excluem os seguintes. É a ordem correta de um sistema: quando Deus está no lugar certo, tudo o mais recebe mais, não menos. E quando alguma criatura ocupa o lugar de Deus, trabalho, filho, projeto, pessoa amada, aquela criatura é esmagada por um peso que não pode suportar. É o que se chama, na linguagem antiga, de idolatria; e o primeiro prejudicado é sempre o ídolo.
Uma palavra prática, porque tudo isso pode soar alto demais para uma terça-feira comum.
Não se começa por grandes propósitos. Começa-se pelos meios ordinários que a Igreja sempre indicou, e que são deliberadamente modestos: os sacramentos, com a confissão regular e a Missa; a oração diária, ainda que breve, mas fiel; a Escritura, lida pouco e com atenção; e o cumprimento do próprio dever de estado, o trabalho que você tem, as pessoas que dependem de você, feito bem, por amor.
É pouco espetacular, e é exatamente esse o ponto. A santidade que a Igreja propõe não é uma carreira paralela à vida que se tem. É a mesma vida, vivida em união com Deus. O caminho de um professor à santidade passa pelas aulas que ele dá, não por algo que ele faria se tivesse outra vida.
E há um dado consolador: quem começa não sente, na maior parte das vezes, nada de extraordinário. A união com Deus cresce por baixo da percepção, como as coisas que crescem de verdade.
Faça a si mesmo uma pergunta simples e responda com honestidade.
Você acredita, de fato, que é chamado a ser santo?
Não se você deveria, isso já está estabelecido. Se você acredita. Porque há uma diferença enorme entre saber que a Igreja ensina isso e organizar a própria vida como quem leva a sério.
Se a resposta for algo como "sei que sim, mas na prática não conto com isso", vale saber que essa é a resposta honesta da maioria, e que é precisamente aí que a vida espiritual costuma começar de verdade.
É essa mesma busca, a de viver a fé como o centro de tudo, e não como um detalhe, que sustenta a Acutis Academy e a formação que oferecemos a cada aluno.
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